18 de maio de 2010

Um capítulo a menos?


O abajur à noite ilumina a minha desordem
Os meus dedos traçam um risco em meio a poeira dos meus cômodos
Incômodos
Acúmulo de dias perdidos

Os maços misturados a sementes de frutos cítricos provados
Mostram-me o desastre que tenho causado à minha construção

"Permaneça o amor fraternal", diz a Bíblia toda vez que a abro
Capítulo 13 de algum lugar, deste eu não saio nunca
Treze,
Talvez seja o número de capítulos deixados de escrever por dia em minha vida
Insisto em não mudar a página

As garrafas estão vazias
Os livros estão contra mim
A música envolve, fustiga
As letras estão aqui
Batendo-se contra as paredes do meu quarto
Tentando esquecer uma verdade cruel
O som se vai e ela insiste em ficar

Eu me obrigo a dormir
Luz apagada
Olhos fechados,
Volto-me para dentro
E o conforto da escuridão me adormece
Mais um dia
"Permaneça o amor fraternal"
De alguma maneira
Insisto em não mudar essa página

by Val Costa Pinho

10 de maio de 2010

Faltas


Porque ser só
Me fazem só
Eu me faço

Não sei de tal merecimento
Nem quantas "fés" destruí
Quantos fiz chorar

Não sei de mim que choro
Me fecharam as lágrimas às lembranças vãs

Então sei de quem fiz feliz
Sei do bem que lhe fiz
Mas não sei por que me fez só

Lanço-me àquele espaço
Vazio faltante no quebra-cabeça
Fico a observar
Como ser só
Junto a partes iguais a mim

by Val Costa Pinho

7 de maio de 2010

Um adeus

Sou fruto descendente
De várias árvores sou cria
No solo que vim ao mundo
Sou a história que semeei

Ali plantado foi
Por muito tempo meu retentor

Entre laços de união
Deram luz há uma flor
Flor de um fruto sonhador

Quantas vidas me puseram aqui
Quantas lágrimas me serviram de adubo

Muitos frutos
Vi secar
Quando ainda
Abotoava-me como incógnita
Num galho frágil e delicado

Eu não sequei
Tornei-me ternura
Fruto precioso
Afável sedutor

Protegido entre o calor de um sol punidor
E de tempestades enfurecidas
Eu cresci
Fui colhido e provado

As minhas sementes semeadas
Tornaram-me bosque
Regressei ao solo do meu criador

Uma falta aflora
Muitos se foram
Como muitos hão de partir

Esta noite
Dou adeus ao tronco-rei varonil
Mas,
Continuo a seguir
Renovando a minha morada

Até quando
Quem há de prever?
Sigo olhando a minha história
Aquela que semeei
Sigo olhando de perto um novo adeus
Há de nascer um jardim no lugar daquela árvore que a vida levou?


by Val Costa Pinho

10.04.2010+
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