26 de outubro de 2012

Querido Johann


Neste momento, todo o meu mundo parece caber dentro de uma canção. Uma mão me convida a sentar-se no alto de uma montanha solitária, de onde, abaixo, se avista uma orquestra de pássaros humanos e uma plêiade de sentimentos, que refletem a luz do Criador. Creio eu, ser o seu poder de fazer o meu silêncio cantar.
Dança vivificante, faz o meu coração. Sensação de ter experimentado um chá de encanto que serena a alma e faz planar sem precisar nascer noutro lugar.
Senhor Johann, há tempos eu não me atirava ao fulgor entontecido, sem correntes de embriaguez etílica. É linda essa mágica de sons sóbrios e diáfanos, que ao entrar pelas frestas de minh’alma, posta fora todas as minhas fadas fantasias. Há quem diga: “eis uma cidadela de dementes circundando a razão desta mulher insossa”.
Mas que luta hei de travar, se onde dói mais não está em mim?
Devo apenas respirar o ar da montanha, pois logo abrirei os meus olhos. Sei que o avesso do real é a casa do meu existir. Do mesmo modo, sei que ao abrir os olhos, tenho cortinas com janelas abertas e elas dançam.
Eu devo sentir culpa porque elas dançam?
Acho mágico vê-las se abrindo como véus, deixando a luz do dia entrar e nascer em mim. E como essa linda canção, eu sempre poderei ser - nesse mundo de realidades afanosas e débeis - maior. Em mim, sempre maior. Assim como a sua inspiração ao criar “Canon in D major”.

Querido Johann, obrigada pelo adorável momento.

Valéria

by Val Costa Pinho
Escutando: 
Johann Pachelbel - Canon in D major
Imagem
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