28 de novembro de 2012

Arte-consequência


Eis ela
Falta, excesso
Contradição

Ora existe,
Ora não

Eis ela
Oração
Excelência
Negação

Uma assialia
Outro sacia ali

Eis a arte-consequência
Constituída na interseção de todos os fundamentos teóricos
formados acerca de si.

by Val Costa Pinho
Fotografia: Klaus Kampert

26 de novembro de 2012

Ambições x ambições


E no desenrolar de uma conversa entre o Senhor V. e eu...
Lanço uma fala com poucas pretensões: "Existem ambições e ambições".

Qual a sua ambição? - pergunta o Senhor V.
- A minha? Continuar vivendo. - respondo.

Isso é ambição?
- Talvez eu lhe faça a mesma pergunta ao ouvi-lo falar da sua, Senhor! A minha mente inquieta, me fez pensar sobre um peixe.

Um peixe?
- Sim. Um desses peixes servidos à mesa...

Não entendo! Que um peixe tem a ver com ambição?
- Nada. São embaraços, o Senhor me entende? Tem os seus? No momento em que lhe faço esta pergunta, penso sobre o fato deste “nada” ser conjugado. Se ele seguisse nadando, não estaria sendo servido à mesa, o que acha?

Mas peixes, igualmente aos humanos, sentem fome. Ser fisgado é uma conseqüência... Confesso que fiquei curioso com o peixe ambicioso. Conte-me, o que se passa em sua mente inquieta?
- Antes de ser fisgado, ele sempre encontrou meios de se alimentar. Eu não tenho nada contra a sua ambição em devorar iscas, hoje elas são tão modernas e atraentes. Que peixe não se deixaria levar por essas armadilhas, não é mesmo? Mas, eu no lugar dele, continuaria nadando.

Acho que entendi. O peixe deve continuar vivendo, e para que isso aconteça, é preciso se desprover de ambições, estou certo?
- Não se trata de estar certo ou errado, nem mesmo abandonar suas ambições. O peixe fisgou meus pensamentos, talvez pela necessidade deste momento, ou seja, satisfazer a minha fome e se não fosse o peixe ambicioso, como eu poderia me deliciar com o seu sabor, não é verdade? Já passa do meio-dia, se o Senhor refizesse a sua pergunta inicial, eu certamente responderia: “comer e continuar vivendo”. Diga- me, qual a sua ambição?

A minha ambição talvez seja a de atingir a glória. - responde o Senho V.

- Por que “talvez”? Ainda tem dúvida, Senhor? E desculpe a minha ironia, mas o Senhor tem mesmo que atingir a glória, o que ela lhe fez de tão mal?

Mocinha! Atingir, tocar, afetar... você ainda tem muito que aprender com a vida. Noutro momento continuaremos com a nossa conversa, a sua necessidade de fome me contagiou, preciso forrar o estômago e voltar ao trabalho. E você, vai fazer o quê?
- Torcer para que o Senhor não seja fisgado e servido à mesa do mundo. Olha, desculpe a minha audácia, concordo que ainda tenho muito que aprender... Porém, penso que no decorrer de sua vida, lá na frente do tempo que marca o hoje, talvez entenda um pouco sobre a minha ambição. Ela não é melhor, nem pior que a sua... Até logo, Tenha uma Boa Tarde!

- E o Senhor se foi, acompanhado pela pressa, cruzando o imenso oceano da vida.- 

Glória!
Glória não seria a própria vida?
Por que será que ele quer atingi-la, afetá-la, tocá-la?
Não lhe basta vivê-la?

O homem e os seus significados!
Eu e essa falta de entendimento,
O peixe e eu...
Será a minha ambição algo tão reles?

Qual será a ambição do garçom?
Garçom,
Sirva-me um salmão marinado com gengibre, por favor!
...

by Val Costa Pinho

20 de novembro de 2012

Balzaca


Balzaca, és tu mulher?
- Eu mesma
Estranhamente desconcertada frente ao espelho

Quem te ver não acredita!
O que está acontecendo, Peter Pan sumiu ou se perdeste dele?

Cadê  a graça da menina-mulher
As músicas que faziam, esquisitadamente, o teu dançar manar
A imaturidade disfarçada que deixava um mar de graça a ser solto por ondas de gargalhadas?

Balzaca, és tu mulher?
- Eu mesma
Arrasada e sem respostas para lhe oferecer

Quem eras tu!
Por que tanta preocupação com um cravo?
Tu és o próprio cravo, flor
Formosura,
Tás aí a se avelhantar

Teu cheiro nem é mais o mesmo
Por que colônia tão cara?
Quem te enfeitiçou, retirou tua magia...

Por que tu me deixaste presa ao espelho?
Sou a que te sorrir e só quero te fazer acreditar
Que Balzaca és
Mas ainda pode brincar,
Sorrir, gargalhar
Cair e levantar
Cantar e errar
Viver e errar

Ressuscita esta criança levada
E deixa, sem medos, ela te levar

- Ó Criança, és tu?
Eu mesma, Balzaca
Pintando e bordando frente ao espelho
Que usaste para me chamar...

 Estou sujeita a ti,
Sobreviverei
?


by Val Costa Pinho

18 de novembro de 2012

Vinho e cristais



Hoje eu não quero tocá-lo
Não sentirei o gosto de ti
Os teus pés, 

Por ora, em cristal
Ficarão onde estão

E os fios que levam ao côncavo de onde me espera
Essa coisa que inebria
Tocará apenas a ilusão a pontear
Em minha língua o teu doce sabor

Quer o desejo lúcido,
Apenas olhar-te
Em lugar de possuí-lo

E assim,
Quer este mesmo desejo,
Ver-te alcançar o valor do tempo

Se por destino perseverares
Ficarás mais espesso
- É certo asseverar

Todavia, seduzirás um paladar mais refinado

E tenhas fé

Os teus pés, ainda que seja doutro cristal,
Serão bem tratados e
O teu sabor mais bem sorvido

Assim me diz tal sã consciência que
Renuncia ao fadado gosto efêmero
Ao passo que se apressa a
Apurar o meu paladar

by Val Costa Pinho
Imagem: 
Francine Van Hove

12 de novembro de 2012

Apenas falo


Ando desconfiada...
Falo do tipo de andar que se completa na inércia
Alguns até sentam no sofá assistindo a vida passar

Tem vida que se imagina em tela projetada
Em traços típicos que fumaçam ideais
Fantasia nossa de cada dia

E se não vive os seus ais
Oh, dó!

É como panela de pressão
Tem gente que não usa por medo de explosão
Mas quando come do seu resultado, se lambuza

De ais vem a boa morte
Falo do tipo que não se vai e se completa nalgum lugar por aqui mesmo
E por não falar em fantasia, ela se revelou...

Mas o que eu queria mesmo era tocar na paz
Dessas, do tipo intenso, que para os mais vigilantes ·é mau presságio·
Dizem que é falta de fé

Será que alguém já viu uma panela de pressão estourar?
Diante do que, momentos antes, era paz
-É muita pressão pra pouca panela...
E essa intensidade é desassossego

Eu bem sei desses vigilantes
Ouvi falar aqui, de dentro pra fora

Coisa de quem fecha os olhos pra sentir o silêncio límpido
E a fragrância do tempo sem projetos, sem nada
Do tempo da indolência do olhar, se me permite assim dizer
Cansado das telas, que entre tantos dizeres, não dizem nada
E por querer assim estar, 
Pulam de dentro da massa de ideias, monstros de dentes afiados e olhos esbugalhados

Não entendo suas cabeças disformes e
Por que são tão grandes?
E por que muitos e eu, não entendemos o que eles falam?
Alguns babam,
-E se “nos” não for inadequado, se me permite assim dizer-
Só querem nos comer

E por falar em fantasia...
Paz, aqui jaz.

by Val Costa Pinho
Imagem: Tom Gauld

9 de novembro de 2012

Atos




Às repetições do meu bom-dia...
Em meio ao tempo que corta sem sujar roupas
As repetições acompanham comportamentos
O dote é caro para quem as cortejam
Paga-se com a própria vida...

Não sei por que escrevo, mas o meu ato de escrever é ato de repetição de quem escreve desde que letra é letra e serve para alinhar a vida fora do papel
E fora do papel vivem todos que aqui estão
Por que se tudo é repetição e, por entendimento de palavra, cópia
Creio estar correta sobre parca afirmação

E Deus que já escrevia certo em linhas tortas,
Talvez tenha me feito assim também, nos mesmos moldes
Por isso, insistindo no talvez, eu não consiga encontrar caminhos para descansar
Não é o que parece... Nada de epitáfios - não neste texto

O meu desejo é continuar a busca pelo que não é repetição
Mesmo sabendo que o encontro será com o impossível
Deixo-me ir, é divertido
Faz sentido...
Em teoria, não se sabe o que se busca, não é mesmo?
É um tal jogo de faltas, que bem poderia ser flautas
Canção, unção e ponto final.

Depois do ponto final que melhor seria se fosse reticências,
Pensei - pois eu penso - que as repetições só acontecem quando postas em palavras
A ação é cópia, mas a forma como eu ajo usando a ação é particular
Aquele fio de cabelo que cai devido a falta de vitamina A, no momento de...
A gagueira seguida de chá de “sumiu a minha voz”, na hora de...
Talvez me faça pensar, equivocadamente, assim

Mas, alguém que não me ver acordar de mau-humor, como quem deseja que a noite próxima, caia por cima das cabeças que me dirigem palavras matinais sem antes me acarinhar - estou certa que há, de nalgum lugar, repetir esse despautério

Então nesse mesmo escrito
Contradigo e prossigo com as repetições para não sair do contexto
Mas penso, com direito a balãozinho suspenso no ar:
 “Como se a vida fosse contextual do lado de dentro - Até parece”

Todavia - ninguém via que a vida era uma via - eu estou dentro dessa “vibe”
Odeio esses termos
Embora jovial, não me adapto, não tem jeito
Já vivo caindo nas linhas tortas
Que, com todo respeito
Agradeço ao Senhor

Mas cair numa adaptação grotesca e vazia
Isso é só um modo de repetir as minhas falhas
E eu rio porque é o que me resta
Mesmo sabendo que chorar proporciona o mesmo prazer
Todavia - ninguém via que a vida era uma via - no momento rio, porque lembrei do David (da Anne Holm) que não ria

Tadinho
Antes de sentir ares de liberdade, ao fugir do campo de concentração
Ele era cópia do sofrimento em forma de cão, digo - em forma de gente,
Mais logo conheceu o próprio sorriso. Lembrei,
Então resolvi rir, igualzinha a ele
Ou seja, repetindo o seu ato de esboçar boa emoção e, por conseqüência, exercitar os músculos de minha face (o mais sem graça possível).

Há uma fuga catastrófica do contexto, ou não. (com direito a piscadelas)

Propositadamente, suponho que eu tenha feito isso para finalizar o texto
Pois quero dormir
Será que amanhã acordarei de mau-humor
?
Se ninguém me acarinhar e chamar de amor,
Eis a sentença já manifestada: Sim.

Pois estou nessa... é a tal demanda de amor
Por conseqüência, repete-se a vida
Em comportamento (mesmo que me falte a vitamina A),
Em palavras e suas cópias


E o que é isso nada?  Ops! E o que é isso tudo? – pergunta a voz da consciência
A mesma voz, dessa vez fingindo não ser a mesma, responde - Como saberei? Não sou eu quem escreve certo por linhas tortas...

by Val Costa Pinho

5 de novembro de 2012

À vida



Do imponderável
Sabe-se do céu
Da loucura
E candura de levantar
E perceber-se estrela
A ruína de qualquer escuridão

Sabe-se do mar
O que principia a sua primeira tormenta (?)
Do louvor e leveza de flutuar
E consentir-se peixe
Provisão divina, sinal secreto
Além-mar

Sabe-se de tanto que não se daria
Aqui a declarar

Onde pisas
Até onde possas chegar
Da distância
Entre vida e morte
Sabe-se o quê?
Resta-se o quê?
Senão apenas, caminhar 

Deixa-se viver
Saber-se de nada, esse
Tudo ornado de sentidos tidos por cima de tidos
Ser-se fingidor,
Amante das palavras que fazem de ti
Pérvio, ademais
Único como cada estrela e peixe a existir


by Val Costa Pinho
Imagem: Vladimir Kush

1 de novembro de 2012

Sustentação


O que seria de minha feliz cidade
Se não houvesse uma atriz 
Tesa de desejos
Uma canção sedutora e um ator pujante
Juiz e jurado, rendido às curvas das avenidas
Porém cônscio, quando chamado
A ser lei diante do seio amado?


by Val Costa Pinho