12 de dezembro de 2012

Nós de meu “a gente“



... a princípio, incomoda esse “a gente” que se enquadra em “nós”, pronome que torna plural as minhas ações, como se elas não fossem particulares, restritas à minha filosofia de vida. A propósito, a filosofia surgiu, felizmente, para nos libertar dos “nós” hierárquicos que impossibilitavam de nos expressar de acordo com as nossas elaborações.
Elaborar o quê? Se em nós mesmos, havia cadeados à porta dos sentimentos. Desse modo, como poderíamos pensar? Percebo que estou voltando, quando não deveria nem ter partido.
Agora! Isso é atual, chocalha em nossos ouvidos por todos os meios de comunicação. Limitados a gostar de, comprar o/a, aceitar isso, desfazer daquilo e ser feliz. Não demonstrar tristeza e fraqueza faz “a gente” se tornar bem-aventurado. Inúmeros estudos elucidam textos atraentes sobre a sociedade consumista, do aqui-agora, compulsiva - eu quero, é meu, é o que me satisfaz - assim também, como todo aquele emaranhado medicamentoso que me faz dormir quando eu sinto dor e sorrir quando eu quero chorar...
Eu, com o perdão da individualização, percebo que as correntes de pensamento que comungam contra a desqualificação do sujeito, também o desqualifica, à medida que impõe sutilmente uma forma de desejar, “um desejo comum a todos”. Se aos trinta anos de idade eu não casei ainda, provavelmente eu tenho alguma questão edípica, existencial, comportamental, financeira, sexual, religiosa, mal resolvida; Se quero ser mãe solteira, alimento apego e demasiado amor aos meus genitores, há algo errado; Se não sou socialmente comunicativa, expressiva e extrovertida, tenho que ser posta numa cadeia de exercícios mentais e físicos, tenho que me adaptar, ser contra a minha natureza, o meu próprio desejo; Se estou acima do peso, devo conhecer a fome, a anemia e os meus ossos... Então me pergunto, por que existem antônimos? Seria apenas para bater face um espelho e saltar por cima de nós para o canto de um quarto escuro e desaparecer?
A cabeça que não é da gente quer nos fazer anjos, palhaços, “paraísos artificiais”. Estamos num grande baile de fantasia, usamos máscaras para lidarmos com o cotidiano que nem temos o direito de escolher. O mundo cheio de significações, fica limitado aos significantes de uma minoria pseudo-guia-intelectual, que não aceita idéias pautadas no livre-ser que adoece, entristece, chora, se queixa, e, mesmo assim, é capaz de ser feliz dentro de sua própria filosofia... Ajude-nos por favor a conseguirmos lidar com o nosso livre-ser.
O livre-ser que não tem a cara do “emotion smile”, sorrir nas pausas do seu natural descontentamento sobre a vida, essa grande interrogação sustentada por um ponto que em breve será final para todos.
Se a insatisfação é inerente ao ser, se a busca será eterna mesmo que eu não saiba o que esteja procurando, por que temos que ser “a gente” quando queremos ser apenas um “eu”... Tenho tentando me considerar imperfeita, inacabada, vazia, porém preenchida de significantes que são meus: A minha cadeira rosa ferrugem, as minhas meias algodão do pé, o meu colchão de nuvens, o meu braço amigo e o meu “te amo” perfeito e cheio de luz; as minhas quedas num chão de borracha que apaga qualquer dor que insista em ficar, o cheiro de azul, o frio do calor tardio – Tudo isso pode ter um significado para “a gente”, mas só eu sei do meu e o que me faz ser assim diante de tantos rótulos e imposições a favor do extermínio de uma individualidade que - ainda que tremule e insista em ser “a gente” – é, acima de tudo, divina, livre-ser-arbitrária e só...
         Cá pra nós, quando a gente vai se adaptar?

by Val Costa Pinho