30 de março de 2013

Das diversas impressões de um gozo





Os textos, as coisas ditas, as coisas mal ditas,
As pessoas, seus abraços, seus olhos...

Se não os sinto, foge todo o sentir
Mas não o sem sentido, esse me atrai
Logo, o que deixo entregue à fuga?
O sentido que colocam nas nuances, nos contornos, nas palavras
Na mesa do centro da sala;

Num giro de 360 graus, está tudo pronto
Até o ponto final, é um ponto perfeitamente circular,
sem dúvidas para formar vírgulas, no borrar de uma esferográfica,
no tremer das mãos, no sangue correndo as veias...

Como me entedia...

É muito mais atraente o que me parece inatingível,
O desequilíbrio do sal na salada
Do doce no chocolate quente

Ai! (sussurro)
 aquele diálogo se equilibrando à beira de um precipício
Na corda bamba.
Caiu, levanta!

É penoso, sentar e esperar o pronto e acabado

O comedido e a medida bem medida, me atrai
Mas foge, por se completar em suas próprias linhas
Na tinta da parede, no cheiro sempre igual do lugar

Sabe o lugar que você já sabe o cheiro que vai sentir quando lá estiver?
Sabe aquele livro que você imagina o final; aquela falsa vidência sobre as palavras que acaba dando certo?
O pronunciamento que você já imaginava ouvir; as acusações, o comportamento débil, hostil, imaculado; as previsibilidades?
O abraço xoxo, o olhar morno, o sorriso com a gengiva preguiçosa?

Pelo amor de Deus, fadiga o meu tempo de vida
E ele é tão pequenino, e eu também...

Então eu sempre espero, “balança a pema”, solta a pemba, risca o chão...

Se não vai ser intenso, um saltimbanco a enganar meus sentidos
Se não vai me causar cócegas no céu da boca, com estrelas incontáveis
Certamente, vai me fazer padecer

Por precaução, me dou aos sombrios, aos meigos em sua agonia,
À doçura amarga, à frieza desejando esquentar acentos
À intemperança, às faltas; ao contraditório
Mutável, ardiloso... Ao incompleto
E, é claro, o doce mais doce, sem parecer doce;

Procurar uma saída sem tê-la
O que poderia ser mais real e prazeroso?

Nestas faltas, vibro,
Por saber que por trás de tais vibrações
Gozo.

by Val Costa Pinho


28 de março de 2013

Caindo em si



Eis um narrar atingindo o breve pensar;
Do que pronunciei ontem à beira do abismo da noite
Dissipou-se com o nascer do sol:
 - Eu assalto a brevidade para que olhe os meus lábios
E através deles, se ainda existe algum desejo, pulsando em tua mente
A imortalidade fundir-se-á no ato do nosso beijo
No encontro de, quem sabe, semelhante querer
Efêmero como a vida
Que nos coloca de frente, um ao outro
E nossos nus juntos
Serão nós
Ou seremos nós.

E lá se vai a noite, 
Como o meu último bocejo
Apagam-se as últimas estrelas,
Nossos nós
Inacabados e sós.

by Val Costa Pinho
Pintura de Edward Munch "Melancholy"

21 de março de 2013

Na palma das mãos



Em minhas mãos seguro um cristal
Ninguém o vê
Às vezes ele é o mundo
Seguro na palma das mãos,
E quando é possível, seguro também o coração
Parte do cristal
Do mesmo mundo
Um todo, cheio de energia

Eis o cristal
Tem o poder de morte quando me domina
Do mesmo modo, o poder que me reanima

Tenho em mãos um bem incontrolável em pensamento
Por descuido no lidar
Tamanho é

Entre o bruto e o lapidado
Ente o perdido e encontrado
Existe a criação
Que é destruição nalgum canto ou centro de mim

Um fio condutor pra minha alma
Assim levo dos pés ao horizonte
Uma fonte interminável de sensibilidade

Ao se pôr me abençoa,

Ao nascer faísca curtos mudos em mim


A luz é o meu grito

Sorte haver escuridão
As minhas mãos se juntam em prece
O sentir adormece
E o cristal se faz Deus

Valei-me Senhor!

by Val Costa Pinho

18 de março de 2013

Uma conversa entre eus


─ “Eu te amo não é Bom Dia”!
─ Por que não?

─ Porque as pessoas são hipócritas, elas espalham “eu te amo” como migalhas aos pombos.
─ Hum! Se os pombos têm fome, o que tem de tão ruim em distribuir migalhas? Você sabia que logo depois de saciarem a fome, eles acertam um belo voo? Provavelmente satisfeitos e com algo preenchido dentro deles. Você sabia que algumas migalhas são distribuídas como retribuição ao que os pombos representam - paz, por exemplo - , ou por um simples gesto de bondade? Existem pessoas boas, sabia?

─ Paz e pessoas boas! Em que mundo você vive?
─ No mundo fora da TV, dos noticiários, folhetins de violência e sensacionalismo; mágoas, ressentimentos... Acredite, existem muito mais pessoas boas no mundo que ruins; Tendemos a qualificar como boas, àquelas as quais as qualidades são mais notáveis, porém, somos defeitos também...

─ E por causa disso “eu te amo” deve ser usado à toa, como um Bom Dia? Por que você mistura tudo? Só para não aceitar que estou falando uma verdade? “eu te amo, não é Bom Dia”!
─ Sinto muito por você achar que tomar um chocolate quente ao lado de uma boa companhia, seja algo à toa; eu não misturo, eu agrego; não creio falar verdades, apenas aceito todos os “eu te amo” possíveis e passíveis de fazer os meus dias, bons dias!

─ Sinto muito por você se contentar com migalhas.
─ Hum! Não sinta. Seria mais penoso para mim, viver com fome e superexigências quanto ao próximo. Talvez você tenha razão, talvez não, por enquanto lhe desejo um belo Bom Dia!
A propósito, eu te amo!

─ Besta!
─ Hahahahaa!

─ Amanhã, estará aí a pensar tudo ao contrário.
─ Você também!

by Val Costa Pinho


16 de março de 2013

Borboletas de asas transparentes



Eu que conheço inúmeras borboletas de asas transparentes
São quase anjos, 
Quase humanos, 
Quase tudo
Eu que uso o "quase" como proteção para não prendê-las no verbo "rotular"
Eu que admiro, 
Oro, e emano paz e luz 
"Partículas" de leveza em forma de palavras,
Coisa que parece à toa, porém não pesa a alma, 
Tampouco suas asas
Eu que amo borboletas, 
Tenho amado tudo, 
Até o que não vejo
Será desejo: renascer, voejar?

by Val Costa Pinho
Imagem: via hypeness

15 de março de 2013

Os Pés, o cais




Arrastando correntes
Lá se vão
pés
Como o peso das âncoras
Dos grandes barcos
Que ancoram por não ter partida

É o fim,  
E o princípio de logo mais
Partir para aportar

Noutro cais

Mesmo com o peso das correntes
A paisagem virgem
Dá ares de recomeço

Mas
o que passou fica
Seguindo o fluxo da lógica
De todos que partem para o mar:
Seguir e chegar...

Até a próxima âncora descer
O marinheiro espera
E a vida é uma espera, desejo de alcançar o horizonte,
despedidas
 e assim se parte
Sem nunca
Saber o que
Esperar

Deve haver alguma lógica nas correntes que arrastamos
Uma espera sem saber o que esperar

E a maré muda
Até o barco muda
E se a gente não muda
Afundar é o fim que chega
Antes da vida afundar

Daí
Vem a sorte de cada um
Se debater
O porquê de juntar barcos
Para depois afundá-los ou
Se debater até fenecer...

Acalmai o teu cais com um só barquinho.

by Val Costa Pinho