30 de abril de 2013

Pólos de um sorriso



O que diz um sorriso de uma pessoa?
Por que um sorriso incomoda a tantos?
Se ele está estampado em nossa cara, como segurarmos para satisfazer o desgosto dos outros?
O mal-estar de ver o outro feliz; as definições de provar o quanto de felicidade inexiste na vida; os pontos de vista que rodeiam a não existência das coisas boas, do amor, da paz e da felicidade, deve ser encarada como uma perda de si mesmo dentro de um contexto relacional saudável
É como não esperar a ordem natural de nossas aflições, e buscar afligir o próximo para assim sentir-se útil diante da própria deficiência
Às vezes eu sinto como se os outros quisessem nos ver lamentando a vida, nos queixando dos nossos normais desajustes vivenciais
E me questiono, tal atitude serve para satisfazer o quê, quem?
Se eu digo amar a vida, se eu sorrio na fotografia, não estou excluindo o sofrimento e a dor inerente à minha existência...
Estamos sobrevivendo, e sobre a vida podemos escolher viver o lado bom e sob a vida podemos colocar as boas vibrações, as coisas que cabe à vida suportar
Pois naturalmente, a dor virá
Em muitos momentos, a solidão será visceral 
E vai arder a saudade dos bons momentos
E só em existir saudade
Creio que tenha coisas absurdamente boas demais existindo
Se bem acredito em movimentos, bem sei que as ondas,
os ventos e o passeio dos pássaros levam pra algum lugar
Estão todos ao sabor da vida,
Repleta de caminhos e sorrisos que nunca são demais para enaltecer
a breve caminhada que termina antes do alvorecer final.
Então, o que me importa
É ser tomada pelo que é absurdamente gostoso de viver
Todo sorriso será bem-vindo
Até que o palco seja aberto às lágrimas do meu oceano
Eis a vida, bipolar

Aí questiono o pólo "negativo" dessa face instável
O que diz a tristeza de uma pessoa?
Por que muitos se incomodam?
Afora o sofrimento que impede o próximo de seguir a sua caminhada com autonomia
Não creio existir males que não possamos suportar na tristeza, nos momentos de introspecção e solidão...
Nem mesmo, males da dor e das lágrimas póstumas aos momentos inesperados, inacabados e decepcionantes em nossa estadia por aqui

Eu aprendi a entender que só posso conhecer o horizonte se eu enxergar além dele, pelo menos tentar alcançá-lo. Eu sei que não tocarei em sua linha horizontal, mas se eu acreditar que, simbolicamente, como a diz a música "além do horizonte existe um lugar", estarei alimentando outras perspectivas diante dele.
Mas o que isso tem a ver com sofrimento?
- Eu só poderei julgar que existe o oposto se enxergar além dele, mas para isso eu tenho que passar por ele, alcançá-lo em sua raiz e acreditar que realmente existe um lugar fora do sofrimento...

Em suma, do sorriso e da tristeza de uma pessoa, só ela poderá dizer...
O meu sorriso diz que a minha tristeza está à espreita, mas ele, por ser tão contagiante, faz a própria tristeza também sorrir. Ao contrário, apenas me recolho; meu horizonte, meu rio triste, na espera da boa maré, se achegar.

by Val  Costa Pinho

21 de abril de 2013

Sobre um cérebro pirata de incompletudes completas



O meu ser faltante é a própria falta já existente
Antes do verbo encarnado
Da criatura em barro a encantar o vazio

É um causo essas coisas de fixar um pensamento
Num determinado ser que também se fartou de faltas e
Tocar a sua filosofia sem movimentar a própria existência do pensamento
Que é moldado é claro, das cópias que o mundo dá

E das voltas que o mundo deu
Também nos deu o arbítrio que é livre sem ser
E eu prenhe de palavras prestes a serem jorradas por um orgasmo de pensamentos
Sou barrada...

E se fujo alguma letra a mais do que algum teórico um dia pensou
Fico borrada até me apagarem com a tal borracha do intelectualismo humano
Aquele humano, barro
Esculpido da mesma lama de onde eu vim
Do mesmo vazio que já existia antes da palavra incorporar na tal criatura
Conhece
?

Ainda bem que levo tais palavras com graça
Pois, quer ver desgraça?
É contestar o pessoal que já cantou uma estrofe de música que nem o autor sabia que existia, mas a certeza só deixará de ser certa até que um dia alguém em osso e osso, cante: “ressuscita-me” e a coisa der certo...

Pois eu vejo é graça
Papagaio de pirata falar e querer bicar quem tem olho demais pra enxergar

Esta aí, uma coisa que faz o meu ser faltante que antes de ser
É recheio de um vazio que já era ainda sendo,
Sentir-se cheio de si.
Escorregar numa lama de barro e...
O risco é saber se
Brincando, vou endurecer

É barra, essa coisa de não saber
Quem sabe, desses saberes não sabendo nada,
Mexer com lama seja sujo demais como a primeira obra
De uma criança,

De arte? - Perguntaria um pensador andante
É, pode ser! De arte, de barro, do que você quiser...
Contanto que não endureça e se transforme em mal-estar

Há quem, meio a lama, encontre cura, mas haja evolução
Abençoados, sejam!

O meu ser faltante, apenas se entretém com modestas palavras
Pois gosta de sentir-se um Peter Pan,
Seria um disparato (a mais) não lembrar a Terra do nunca
Tão sofrível para o real e tão real para a fantasia

Penso que é a mesma terra do vazio,
A diferença é que aqui muitas crianças crescem e se tornam Capitães
Nesse contexto, de areia
Deixando o Amado fora dessa
Se estiver fora do real vai pro gancho
Aí é barra de ferro, de tranqüilizante...
E não tem Panacéia que dê jeito

Quer ver graça?
Não tem graça!

Volta a ter, quando eu lembro que aprendi, mesmo não tendo como verdade universal, que o vazio é um deus (desprovido de cunho religioso)
Não o preencheremos dentro de nós, mas também não somos só sopro por dentro
Somos o que preenche ele, o mundo que é o vazio completo preenchido de incompletudes
Um conjunto infinito de pessoas vivendo a finitude
E dando adeus à completude externa, superlotada internamente de lindas e ricas individualidades
Deixando espaço para outros conjuntos se formarem...
E vejo tão grande importância nessa falta que é o conjunto unitário, único de cada ser
Insubstituível e real
Seja quem e como for...
Ainda que seja o Peter Pan!

By Val Costa Pinho
(Risos e mais risos, “não sei não assim eu acabo me entregando...”, mas está na hora de adormecer)


20 de abril de 2013

Ao Deus que nos basta e abastece



Deus,
Basta respirar
Amor,
Basta sentir
Felicidade,
Basta sonhar
Horizonte,
Basta enxergar além
Conquistas,
Basta batalhar...

A vida é cheia de bastas
Se nada for o bastante
Se baste
Respire, sinta, sonhe, enxergue além, batalhe...
Deus? Nos basta e abastece!
É você, sou eu, somos nós...


by Val Costa Pinho


18 de abril de 2013

Um Toque, Uma Troca



 Deixa eu te tocar
Nada mais que o toque permitido pelo teu próprio desejo
 Mas como sabe dos meus desejos?


Eu posso ao menos tentar?
Dá-me uma chance e saberás

 Poderá frustrar o meu desejo

Insisto, dá-me a licença de arriscar...

Ao tocar a sua face, fechei os meus olhos
E deixei uma lágrima deslizar
Então senti o seu corpo por inteiro me tocar
Compondo um longo e intenso abraço...

Decerto, jamais saberei o desejo do outro
Sem que ele o exponha
Porém, ao tentar,
Com a mais absurda vontade de conseguir
Oferecendo a essência matriz de toda a minha sensibilidade
Certamente, estarei tocando noutro desejo
Noutras sensações
Afinal, existem infinitos caminhos para se chegar ao coração...

by Val Costa Pinho.



14 de abril de 2013

O canto de Maria



Ocorreu que o Mar ia
E junto a ele, Maria

Tamanha curiosidade ocorria
Enquanto o Mar, ditoso, dormia
Maria ia lhe tomando por completo, 

E por completo, a rainha do Mar tomava Maria

Até o encontro com o sol
Quando a vida acordava por dentro do Mar
E Maria arteira se punha a assobiar


Ocorreu que do outro lado da terra
Farta de punhados de areia e água doce
A Dona do espelho, da beleza e bondosa energia
Das margens cristalinas dos rios
Encantou-se com a poesia dos silvos de Maria

O Mar, de longe, a consentiu
As ondas sorriam com o encontro do Rio


O Mar, rio
O Rio, rio
Após o abraço de “até mais ver” entre o Mar e o Rio
Maria ia
Pelas correntes de água atravessaria
Junto à rainha dos espelhos, ancoraria
E,
Toda vez que a saudade lhe vencia
A poesia do assobio nascia

A lua cheia enchia as marés
O mar se engrandecia e agradecia
Mirava, através do reflexo da lua, a sua saudosa Maria
Que, banhando o seu corpo na cachoeira, acenava e lhe sorria.

Até o próximo deságue
O Mar ia
O Rio, ria
E junto a ele, Maria!

by Val Costa Pinho
Imagem: Lídia Luz

9 de abril de 2013

Bênçãos vindas de uma caverna improvisada




Uma menina escondida por detrás de grandes pedregulhos
Eram como rochas que a protegiam de pessoas más; monstros do armário, homens do saco, bichos-papões... E cicatrizes que ela obtivera devido a tantas quedas
Creio até hoje existirem chagas abertas em si
Ainda assim, tantas outras foram curadas

Ali em sua divina caverna, com vista para o céu
Havia uma menina pedindo a Deus uma viagem, uma eterna viagem
A espera se apressava devido a sua falta de adaptação
Com o tempo passando
As pedras foram retiradas para novas construções,
A caverna fora desfeita
Porém, deu-se o início de uma eterna viagem de alma e corpo

Deus lhe deu o inominável
Alguns o chamam de amor

A menina da caverna não entendia essa coisa, nem o porquê dela existir
Às vezes doía não ter mais a caverna, 
Às vezes era insuportável olhar as pedras no caminho e não serem mais as mesmas que lhe serviam de abrigo

Por não saber o que era o amor
A menina abandonou o seu Deus
Mas Ele nunca a deixou em paz
Ele era a própria Paz

E por mais que ela Lhe virasse as costas
Ele a cobria, se fazendo a própria caverna perdida que ela tanto sentira falta

No dia do grito de dor, eu estava lá...
Foi tão forte e arrebatador
Ela aprendera com a dor, finalmente, o que era o amor
E nunca mais esqueceu Aquele socorro, Aquela presença...

Eu estava lá até o momento de vê-la partir
Dando lugar a uma íntegra e bondosa mulher
Deixando os demônios mais febris evaporarem
Deixando o medo ser dilacerado pelo tempo
E o seu Deus ser acolhido por cada poro do seu corpo

Surgia uma nova caverna
Feita de todas as pedras que a fizera cair um dia
Talvez a construção de um vivaz edifício
Afinal, nada, exatamente nada, é difícil quando Ele existe

E reluz como o mais vivo e brilhante Sol
A mais cheia e iluminada Lua
O mais intenso e infinito Mar
O essencial Ar e a mais fértil e magnaníma Terra

A isso dou o nome de benção

Benção
Sem a necessidade de quaisquer exaltações
Era assim que a menina desejava viajar eternamente
Durante o templo do Seu Deus
Que é o templo da vida

Feridas, dores, cicatrizes, sofrimento, força, cura;
Ótimos cuidadores; amores, paixões, alegrias, decepções;
Experiência, conhecimento, pedras no caminho, paciência, fé...

Como essa mulher conheceria o seu Deus sem estas tidas bênçãos?

by Val Costa Pinho 
Imagem: Semiotic Apocalypse

Coisas do Platônico



Então perguntei para uma sábia:
 [...] Existe nesse pouco de reciprocidade alguma chance de aproveitar esse pouco?
 Não (respondeu a sábia)

Então perguntei para o meu coração:
 Escutou o que ela acabou de falar?
 Não, escutei o tiro de um canhão, surdou-me até a alma (respondeu ele)

Então perguntei à minha razão:
 O que fazer com o pouco que jamais poderei aproveitar?
 Ela, sempre “impoluta”, me respondeu:
 Se atente a reciprocidade e não a quantidade oferecida
 Mas a sábia disse “não”, escutou?

 E você, se alimentará da surdez por quanto tempo? Até os seus olhos já não são os mesmos... Todo “não” é um ponto de partida para um “sim”...
 Dona Razão, a sábia achou que eu fosse mais inteligente!

 Me responda, Dona "menos inteligente": o que você faria ao encontrar com um pouco de água no fundo do poço depois de uma semana caminhando no deserto, com sede? Esqueça o pouco; a água é o mais importante... Outra questão: Não esquecer que a emoção e eu, somos parte de você. Sorte sua, esse coração ser uma bomba inofensiva para mim. Ainda assim, escute-me e Siga-o! 

by Val Costa Pinho
Imagem: Google imagens

7 de abril de 2013

Sobre a Morte...





A princípio (ou fim), é pra quem tem vida; não precisa coragem, não existe fuga
Supre todas as faltas... É fascinante, pela visão real do observador
Delirante e dor, pela visão real doutro observador
É o nada sendo tudo, e este se tornando o que ainda não sei
É o que se espera e se renega
Uma queda num abismo de estacas ou plumas
Quem saberá?

Feri a nossa egocêntrica carapuça
Afinal, somos mortais (uhuu!)
E, ainda  que fôssemos imortais, a dona da foice  nos perseguiria
Ela nos secaria as emoções;
O tédio, e os seus outros escravos, nos mostrariam os seus grilhões até a carne apodrecer, cheirar mal...

Ai! Aquele corpo, antes, tão desejado
O objeto de tantas inspirações,
O suco do mais delicioso néctar
O corpo 
Quanto a morte, quem haverá de beber do seu néctar, 
Não tornará possível falar do seu gosto...

Para corpos amargos, morte amarga
E entre os corpos doces, a morte calma, o tempo para ser aceita, com tempo para olhar lá atrás e pensar em tudo, 
Ou fechar os olhos e não pensar em nada

Paz, talvez venha assim, à beira dela
E ela nos beira tanto,
Quem haverá de saber se existe um momento de folga?
No qual a paz se achega e a mais incrível realização da vida
A grande descoberta,
Seja o adeus...

Certamente a pessoa mais amada será aquela que retina no seu último suspiro,
Poetizar o momento me conforta
Mas, certamente é algo que eu não saberei até aqui, o momento em que escrevo
Então nada é certo
Afora, a morte
Certeira, rainha das flechas letais...

Confesso que não existe  em mim, inclinação para trocá-la por versos
Talvez numa simples tentativa, eu, um pouco zonza...
Possa completar:

A morte,
Eu posso não estar nela
Mas ela está em mim...
Eu posso não compreendê-la
Mas ela compreende o meu ser

Se existe a prisão num corpo
De espírito, mente, alma...
E todos (iguais) em busca de algo
Supõe o meu instinto
Que a descoberta só virá
Quando a ela chegarem

A vejo tão voraz e, ainda assim, libertadora
Devora corpos, deixando apenas o monte de frestas ossais
A gaiola aberta
Para, enfim o pássaro voar

Talvez, seja a resposta para o “ser faltante”
A real liberdade,

Irônico pensar o real fora do real
Mas, se assim penso, nessa tal e infinita liberdade, não haverá "faltas a ser"...
Sendo assim, eu desconfio que só a morte possa nos apresentar o fim do grande enigma que carregamos... (Alguns carregam cruzes, outros palavras, outros o vento e o nada...)

Os pássaros talvez sejam o elo entre a vida e a morte ...
Por querer voar, seria alguém tão infeliz assim?

A resposta talvez venha de um sorriso
O elo entre a vida e a imortalidade
A morte também lhe sorrir

Mas, ainda assim, eu prefiro o sorriso da vida
E tenho tempo enquanto escrevo,
Com a ponta dos dedos, com o olhar, com essa prisão, que mesmo apertada, é o meu lar
A vida me diz que enquanto existir tempo para mim, tenho todo o tempo do mundo...

É aquele começo que vai dar no fim de outro fim (ou doutro começo)
É a vida que lembra da morte: 
Eu posso não estar nela
Mas ela está em mim...

Enquanto isso, do alto, os pássaros riem dos gigantes e sua eternidade...

 by Val Costa Pinho