13 de outubro de 2013

Transpirando...


Não faz muito tempo, um seminário que “cruzava” a Filosofia com a Psicologia, tocou a minha atenção com a expressão “transpirar”... A arte como meio de transpiração se deslocando do foco da sublimação, do sempre escoamento das pulsões e indo ao encontro da “excrescência”, elevação de algo ditado por uma ouvinte, excitada pelas elucubrações filosóficas da palestrante. 

Eu adoro quando a fome é despertada pelos ouvidos, e isso quase sempre acontece quando estilhaços de coisas fixas voam pelos ares dos meus pensamentos. É, eu tenho certas (e erradas) manias; me prendo fácil por que sinto sempre algum prazer em desprender-se, e nesse ato, cair, levantar... Desequilíbrio, este é o lema de minha bandeira em lugar de ordem e progresso; refiro-me apenas ao meu país, aqui, o de dentro, sem fronteiras, sem roteiros, vestido pelo equilíbrio mais irritante possível.

Equilíbrio não é uma forma de desequilíbrio? Eu cresci achando assim. Gosto do não entendível, do paradoxo, do contraste, da figura e fundo subjetivos, sem determinismos, a “excrescência” (adorei essa palavra falada pela ouvinte excitada), sem a busca do real significado, sem freudeslizar todas as coisas ditas. Porque se caíssemos nessa coisificação teórica e aprisionada, o eu e os outros eus de mim estariam conversando sobre “excrementos”, analidades em seu caráter mais profundo e sexualizado...

Quando isso ocorre, eu sinto uma prisão no meu pensar... Hoje eu entendo o meu silêncio quando posta em grupo! Sem invencionismos, espaço para criação, liberdade de pensamento, eu paraliso. Está aí, a causa de não transpirar ultimamente: tentativa de adequação ao não adequado para mim. O recipiente está vazio pelas certezas (que não existem), pela concreticidade dos questionamentos... Simbolizar, simbolizar, simbolizar! A sensação é de estar preenchendo faltas com argamassa e nesse espaço de tempo (ou falta dele), falta ar e faltando ar, não respiro, e não respirando, eu imobilizo, não existe movimento. Sendo assim, eu não transpiro, não há arte, poesia, vida; ILUSÃO! (Argamassa costuma preencher lacunas? Se sim, eu prefiro preenchê-las com poeira estelar).

As certezas (incertas, impostas) destroem com as nossas ilusões, eu entendo que o mundo queira realidade ferrenha, nua e crua, mas eu também entendo que eu quero e desejo a minha ilusão; sem ela, como hei de criar o (in)imaginável, o ganha-pão dos meus pensamentos, da minha (re)criação, do meu vir a ser... Vida é infinita, é oceânica... É interessante saber das inúmeras visões acerca do que nos move em busca do nosso bem-estar, das nossas satisfações vivenciais... Mas cá pra mim, não quero me curar de todas as coisas... Onde está a graça de achar respostas em tudo? Ainda, de determinar, de moldar tudo à luz de um pensamento universalizado, sedimentado, perpetuado e endeuzado?

Da ilusão que enfatizo, não cultivo a patologia, mas sim, a transformação do bruto no lapidado pelos meus olhos quiméricos, da fantasia de subjetivar o objeto costumeiro e entediante, pintar o invisível com cores vivas "nessa vida" de padrões mortificados e enjoativos.

A vida é uma arte e eu adorei saber que essa arte é uma forma de transpiração. Isso me lembra suor, calor, corpo, toque, gozo, pulsão sem aprisioná-la numa definição apenas pulsão e as infinitas formas de fazê-la pulsar...

Em suma, o cruzamento dessas correntes de pensamento me fez desconstruir princípios que estavam se cristalizando e coisificando a minha visão acerca do meu comportamento e pior, do comportamento alheio (que não me pertence)! Enfim, “nem toda feiticeira é corcunda, nem toda brasileira é bunda”, entende?

by Val Costa Pinho.