20 de maio de 2014

Perdão é também deixar se perder algo


... as pessoas “evolvidas” (em si) subjazem o entendimento da razão no que tange a compreensão do que pode ser aceito ou do que não pode ser aceito no outro - consideram o que é conveniente para o seu contexto, o seu momento... Essa não é uma verdade universal, tampouco, espiritual. 
Perdão, confiança, amor, etc., são nuances de um quadro elevado; se distanciam de expressões sem molduras que ruem junto a paredes de castelos que em nada lembram “encanto”. Objetivando tal colocação – saindo das especulações via introspecção – pensemos o perdão como a supressão de (re)sentimentos direcionados ao outro. Nesse sentido como pensar em aceitação? Perdoar traz consigo esse ato de boa vontade; seria como se nos permitíssemos deixarmos que o outro depositasse em nós o seu bem precioso, o seu tesouro, a sua redenção, a sua mudança... Todavia, acabamos por nos permitir, muitas vezes, a receber um renovado presente - de grego. 
Inúmeras pessoas evoluídas - em si mesmas - esquecem que somos sensíveis, muitas vezes, vestimos armaduras, porém, nem o ferro suporta as sequelas do tempo, sobretudo se o tempo vier com suas tempestades e enxurradas de liquido ácido. 
Não podemos nos permitir o perdão carregado de responsabilidades que não nos cabem. O que perdoa, aceita algo (é particular, pessoal, podem sobrar fragmentos, afinal, somos velhos humanos). Daí, o movimento descambar para um fim ou um recomeço relacional, depende das faculdades naturais de cada um; em nada diz do ser humano ser evoluído ou não. 
Atualmente a fé me diz que o princípio de minha Natureza me aceita como eu sou e, que a culpa – por deixar que fragmentos ainda pesem nas relações que me causaram dor – não deve preexistir à minha vontade de viver em paz e tranquilidade, de me permitir ser luz. E nessa caminhada a minha razão não exclui a minha fé. Numa relação de complementariedade, ela acresce ao perdão, deixar passar o que passou; ir varrendo os fragmentos até que o tempo dissipe o seu último pedaço, mas, acima de um tudo - que não é a totalidade da realidade em si, mas um tudo nesse instante em que escrevo – perdão é também deixar se perder algo que não volta mais a ser como outrora: a confiança depositada naquele ente. Não quero dizer que não haja a possibilidade, nesse mundo de multiplicidades de sentimentos e reviravoltas, que a confiança não renasça, mas creio que o seu renascimento nos chegue corrompido - o puro se desfaz... 
Portanto, para as pessoas “evolvidas” (em si) que se envolucram em suas verdades particulares e convenientes ao seu bel prazer, ficam questionamentos: Por que não ser mais sensíveis ao outro? Considerando que o amor é raro, quebrar o que considero (neste momento) o carro chefe do amor: a confiança; pode não representar nada enquanto ainda faz sol e as estradas da vida estão enxutas. Mas quando a tempestade vivencial se fizer presente e um sorriso for necessário para aplacar o medo, e o abraço for essencial para aquietar o coração, ainda haverá a quem recorrer? 

by Val Costa Pinho.